terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Quem é o carrancudo?


Monotonia, tédio, raiva, stress. Mais um dia de trabalho desgastante sem desgastar, sem nada de novo, sem nada de velho. Você simplesmente não aguenta mais estar ali. Só sua presença dentro do espaço onde trabalha já é o suficiente para te dar a mais profunda tristeza. Cada injustiça ao seu lado parece a maior do mundo.

E assim se vai mais uma terça feira. Nossa! Mas ainda é terça.

Você tenta dar uma risada, mas sempre vem um “fiquem quietos” da chefia, e você fica sem palavras, sem vontade, sem a única coisa que poderia te dar uma alegria por ali.

Depois de mais de nove horas dentro de um prédio, que, no início parecia bacana, parecia legal, era algo novo. As novidades vêm com tudo, e novos empregos sempre dão a impressão de uma nova jornada, uma nova vida, um outro ciclo, o qual será mais emocionante, mais vivo, menos monótono.

Passados alguns anos, você já odiou gente ali, você já desprezou, talvez até amou, desacreditou, se decepcionou e finalmente está desanimado e não suporta mais.

E a cada dia que você sai dali você pensa: Para quê?

Nessa mesma terça feira você vai ao ponto de ônibus, para mais uma batalha. Toda aquela multidão, sempre viva, quente, tensa. Todos em um ponto, com a mesma sensação do fim do dia na senzala. Senzala, porque o trabalho se torna o ambiente que reprime, que sufoca, agride, destrói, corrói, aniquila.

Afinal, passar a maior parte do nosso dia cumprindo ordens que não queremos cumprir, caminhos que não desejamos seguir, para ter poucos instantes de tranquilidade e lazer, que por muito, se resume a um fim de semana no sol quente de uma praia, ou a uma cerveja num fim de tarde.

Oito horas no trabalho, mais duas na ida, duas na volta (se o trânsito ajudar), uma do almoço, e ainda temos que dormir, o que nos resta? Algumas horinhas pra chegar em casa, ver TV, mexer no orkut. É o tal do capitalismo, quando ele nos domina.

Naquele mesmo ponto de ônibus que te levará a um ônibus ainda mais cheio, surge um senhor. Nas suas mãos, um imenso saco de latas e lixo. A barba por fazer, cabelos longos e a roupa maltrapilha denotam vários dias sem um banho. Seu olhar é frio e revoltado. Bravo, zangado, mas sem expressar em palavras, em gestos, em nada, somente no olhar.

Passa pelas pessoas do ponto e se dirige ao lixo mais próximo. Começa a remexê-lo. Enquanto alguns observam, ele encara. Não tem vergonha, mas parece que não gosta que olhem, ou mesmo, quer observar o que estão olhando, ou sentir as sensações que causa.

De um lado uma moça que parecia zangada por uma série de motivos como um dia de trabalho segue da mesma forma, mas seu olhar se foca nele.

Outro se senta e com um olhar mais comovido observa atentamente.

Já uma adolescente passa cantando e gritando qualquer absurdo com sua comparsa, também jovem. Elas chegam perto do senhor e quase esbarram nele. Depois, murmuram algo, como um 'boa tarde', mas um 'boa tarde' bem grosseiro. O senhor ainda carrancudo atende e responde o cumprimento.

Depois volta para seus sacos de lixo. Encontra uma lata, olha para ela e guarda. Depois no outro saco, vê algo e come. Não lhe trouxe nenhuma melhora no rosto, a aparência mal humorada era a mesma, mas ele continuava a vasculhar enquanto comia um pedaço de fruta.

Logo veio outro catador, mas este, com um carrinho imenso. Parecia até funcionário do governo, todo de azul. Ele diz alguma coisa para o senhor, que não liga. Só pega o seu saco e parte para o próximo lixo.

Ele vai. A cara dele é a mesma do início, e não poderia ser outra. Quem sabe se trabalhasse no nosso lugar, o rosto dele fosse mais feliz, ao invés, de ser muitas vezes, o mesmo que o nosso: Carrancudo.

Um comentário:

Bruno disse...

Olá Talarico, Boa Tarde!

Faço contato atraves desde intrumento, para solicitar que entre em contato com Salim

sebosalim@gmail.com

Att, Ana

Bem vindo

Aproveite para criticar, sugerir e ver a vida do modo diferente que ela merece.